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Quem conta um conto...

Por Paulo Pazz


O cheiro de lenha queimada enchia toda a casa. Lá da cozinha se ouvia a tosse de Tianinha que pelejava com o borralho, sobre o qual um caldeirão barrelado cozinhava feijão com pele de porco. 


José  Rosa, mais conhecido por Seu Zoza, guardou a enxada no paiolzinho de pau-a-pique e entrou pela porta da cozinha e dali para um puxado novo que mandara construir “inhantes da chuvarada”, como ele bem recomendara. Aproveitando uma sobra de madeira e telha que sobrou do curral, só teve de comprar tijolos e argamassa, além de contratar o serviço do Domício construtor, o melhor pedreiro vindo de Catalão e que gastara bem uns quinze dias para fazer. 


Até dava pra fazer com 10 dias, mas os serventes não querem nada com a dureza, Seu Zoza!


Estava pronto!


O cheiro de tinta ainda se misturava aos outros cheiros da casa; o que causou um mal-estar em Tianinha, mas valia a pena, no final.


No canto, ao lado da janela de madeira, uma caixa de enxoval também reaproveitada, foi aberta e de dentro dela, Seu Zoza retirou uma mala daquelas antigas e uma sacola cheia de fantasias coloridas e perucas de todos os tipos.


Olhinhos aflitos acompanhavam cada passo de Seu Zoza. Seu Zoza entrou passou para detrás de uma cortina que Tianinha fez com muito esmero na máquina de costura que dominava tão bem.


Antes que Seu Zoza voltasse, Tianinha serviu bolo de cenoura com chocolate (outra especialidade de Tianinha) para as quinze crianças que aguardavam a abertura da cortina.


Alguns minutos se passaram, até que finalmente Clarindo Marciano irrompesse na salinha cheirando a tinta nova.


Por mais de hora, Clarindo Marciano cantou, dançou, fez brincadeiras e contou estórias que fizeram a alegria da meninada. Brotavam de sua boca os mais incríveis personagens mágicos, as mais espetaculares estórias encantadas que os olhos das crianças bebiam com sofreguidão.


Por fim, Clarindo Marciano escondeu-se atrás da cortina e voltou seu Zoza, redimido das agruras de seu dia. 


A meninada, num querendo não ir, se foram pelas ruas sem iluminação do povoado, com as cabecinhas coloridas pelas estórias de Seu Zoza


Só assim Seu Zoza sorria de dentro para fora!





Autoria

Paulo Pazz é licenciado em Letras pela UFG-CAC, Professor pelo Estado de Goiás e Membro da ACL - Academia Catalana de Letras. Também é revisor e colunista da Revista Portalvip (com circulação em toda região sudeste de Goiás), integrante da Comissão julgadora das Olimpíadas da Língua Portuguesa desde 2014, ator integrante da Cia Express’arte e instrutor de “Contação de Causos" pelo Centro Cultural Labibe Faiad (Catalão/GO). Participou da mesa redonda O fazer Poético e do Sarau de Poesias (ambos do I FLICAT UFG) e do Festival Literário do Cerrado – FLICA (Ipameri-GO), edições I, III e IV. Mantém a Página literária do blog Recanto das Letras, do site da UOL, desde Outubro de 2008. Recebeu oito premiações em concursos literários mantidos pela UFG (a primeira em 1993), cinco premiações pelo SESI-Arte e Criatividade (nas categorias Conto e Poesia) e o Prêmio “Trabalhador da Indústria” pelo SESI. Participou de duas antologias poéticas publicadas pelo SESI – Serviço Social da Indústria e publicou os livros "Palavra Lavrada", "Transfiguração" e "Manual do Desesquecimento". Fanpage: https://www.facebook.com/paulopazz

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