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Missa de Natal

Por Paulo Pazz



Hoje, algo me incomodava o íntimo desde que acordara, mal amanhecera. Este algo me premia o peito a ponto de perturbar minha respiração e provocar uma leve dor de cabeça no lado direito da têmpora.


Comecei a me sentir saudosista, fazendo uma retrospectiva de minha vida e me lembrei do tempo em que frequentava o Grupo de Jovens da igreja do bairro em que eu crescera.


Talvez fosse algo sintomático, mas me veio uma vontade extrema de participar da missa novamente.


Arrumei-me e fui. Parei na porta e fiquei aguardando até a igrejinha ir se enchendo de fiéis.


Minha mãezinha estava lá, contrita e silenciosa, como sempre faz em todos os eventos católicos da comunidade.



Eu a via sentada no mesmo banquinho do lado direito da igreja. Mãozinhas postas sobre o espaldar do banco da frente, corpo magro, olhos fechados, silenciosa atitude de respeito, professando sua fé.


Eu podia apreciar seus cabelos poucos e curtos, quase que inteiramente grisalhos, bailando ao vento de um dos poucos ventiladores que tentavam aplacar o calor descomunal de dezembro.


Enternecia-me vê-la naquela atitude de solicitude para com o Cristo Vivo enchendo corações, olhares e silêncios à frente do altar sagrado daquela Matriz bucólica e aconchegante.


Eu entraria e me acomodaria ao seu lado dentro em breve. Por enquanto, me perdia no enlevo de mirá-la, calma e amorosamente, sem que ela desse pela minha presença na igrejinha que já estava quase lotada.


Depois de uma oração, ela se ergue do genuflexório, passa a mão nos joelhos castigados pela quase meia hora de fervor sobre aquela peça de madeira, senta-se no banco e olha para trás. Nossos olhos se cruzam, seus lábios se abrem timidamente num sorriso e seu olhar convida-me para estar com ela.


Achego-me, faço reverência para a nave da Igreja, beijo a testa meio suada de mamãe e aconchego suas mãos entre as minhas.


Sua voz sai sussurrada ao meu ouvido. Bebi cada palavra, como se bebesse do cálice consagrado:


— Filho, você veio!?




Autoria



Paulo Pazz é licenciado em Letras pela UFG-CAC, Professor pelo Estado de Goiás e Membro da ACL - Academia Catalana de Letras. Também é revisor e colunista da Revista Portalvip (com circulação em toda região sudeste de Goiás), integrante da Comissão julgadora das Olimpíadas da Língua Portuguesa desde 2014, ator integrante da Cia Express’arte e instrutor de “Contação de Causos" pelo Centro Cultural Labibe Faiad (Catalão/GO). Participou da mesa redonda O fazer Poético e do Sarau de Poesias (ambos do I FLICAT UFG) e do Festival Literário do Cerrado – FLICA (Ipameri-GO), edições I, III e IV. Mantém a Página literária do blog Recanto das Letras, do site da UOL, desde Outubro de 2008. Recebeu oito premiações em concursos literários mantidos pela UFG (a primeira em 1993), cinco premiações pelo SESI-Arte e Criatividade (nas categorias Conto e Poesia) e o Prêmio “Trabalhador da Indústria” pelo SESI. Participou de duas antologias poéticas publicadas pelo SESI – Serviço Social da Indústria e publicou os livros "Palavra Lavrada", "Transfiguração" e "Manual do Desesquecimento".

Fanpage: https://www.facebook.com/paulopazz

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