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Goianidades

Por Paulo Pazz



Debaixo do céu, a terra. Em cima da terra, o cerrado. Dentro do cerrado, os pequizeiros. Na sombra de um pequizeiro, um goiano curtindo descanso.


Véspera de meio-dia, Tião acabara de lavar o coité em que trouxera a boia. Subiu o barranco que margeava o córrego, dando sopapos na vasilha para enxugar mais rápido. Colocou a cuida no pano de prato e esses dentro de uma capanga que depositou ao pé do pequizeiro para servir de travesseiro. Tiara as botinas, abre a camisa completamente, deita e põe o chapéu sobre o rosto para amenizar a luz do sol intrometendo-se por entre as folhas da árvore.... agarrou num sono babado!


Daí a pouco, um vento diferente arrepia sua pele. Tião tira o chapéu do rosto e vê aquele barrado escuro empretejando o céu lá para lados da cabeceira da rocinha de milho que estava limpando.


Tião apertou o passo em direção à casa onde sua mãe estava, com certeza, fazendo aquele frango com pequi. Quase podia sentir o cheiro e o gosto fortes daqueles caroços amarelos (ouro do cerrado) que todo goiano que se preze aprende a roer antes mesmo de aprender a andar. Chega à entrada da varanda recebendo os primeiros pingos gordos precedendo a torrente que se despejou em cima do mundo, raspa as botinas barrentas em um antigo tapete de ferro, tira-as e joga por debaixo do banco comprido de madeira maciça, enrola a barra da calça, coloca suas alpercatas e dirige-se à cozinha, fazendo um barulho arrastado com os chinelos.


— Bença, minha mãe!


— Bençoe, meu fio! Óia, tô fazeno aquela franga caneluda que ocê tava guardano pra dispois da coresma, viu? Aquele galo danento discaderô a coitadinha, male ocê saiu pra roça. Seu pai pelejô pra aprumá ela, mais num teve jeito, não!

— Pobrema não, minha mãe! A gente iscói outra dispois. A senhora tá fazeno ela com piqui?


— Que mané piqui o quê, sô! Piqui num tem nem pa remédio!


— Cumé qui é, mãe? — disse Tião, dando uma refugada no corpo e fazendo uma carranca de espanto.


— Uai, num tem num teno. Cabo cabano, Tião!


— Num é pussive, mãe! Tô cum a barriga armada pra cumê piqui desde onte de noite. Vô lá no campo caçá uns bago...

— Cê vai metê a boca no arame, puis seu pai já campiô piqui pa toda banda e nada de acha. Tá tudo restoiado.


— Meu Deus do céu! Cumé qui eu vô começa o ano sem piqui? Quem começa o ano sem. Fica sem o ano intero... Goiano sem muié e sem dinheiro, ainda é goiano. Goiano sem piqui num serve pra nada, num é de nada. Nem gente é! Piqui é vida, mãe!!!

— Urrum! — gungunou a mãe, num muxoxo de assentimento.


Tião nem quis comer.


A chuva durou por mais meia hora e Tião não se conformava em não ter se prevenido e guardado um monte de pequi. Não se cabendo dentro de casa, rodeou o curral tão entretido que nem se lembrou da ponta baixa do madeiramento do paiol. Foi aquela pancada medonha, bem no meio da testa.


Acordou assustado com o pequi que caiu na sua cabeça, partindo-se em duas bandas pelo chão. Foi só um sonho, aliás, pesadelo. Continuara deitado debaixo do pequizeiro.


— O sol já vai inclinano pras banda das duas hora. Mió ripicá carrera no cabo da inxada! — Falou de si para si.



Levantou-se, empunhou a ferramenta e trabalhou até quase escurecer, quando reuniu a tralha e subiu em direção à casa, assoviando, lépido, imaginando o frango com pequi que recendia longe no descampado.


Antes de chegar à casa, entrou na capelinha de São José que o pai construiu em cima de um monturo cheio de flores de todas as cores que a mãe plantou. Tirou o chapéu, ajoelhou-se diante do altar e rezou uma reza comprida, pedindo para nunca faltar pequi no mundo.


— Deus me livre, meu São José, de fartá piqui nesse mundão de cerrado.




Autoria


Paulo Pazz é licenciado em Letras pela UFG-CAC, Professor pelo Estado de Goiás e Membro da ACL - Academia Catalana de Letras. Também é revisor e colunista da Revista Portalvip (com circulação em toda região sudeste de Goiás), integrante da Comissão julgadora das Olimpíadas da Língua Portuguesa desde 2014, ator integrante da Cia Express’arte e instrutor de “Contação de Causos" pelo Centro Cultural Labibe Faiad (Catalão/GO). Participou da mesa redonda O fazer Poético e do Sarau de Poesias (ambos do I FLICAT UFG) e do Festival Literário do Cerrado – FLICA (Ipameri-GO), edições I, III e IV. Mantém a Página literária do blog Recanto das Letras, do site da UOL, desde Outubro de 2008. Recebeu oito premiações em concursos literários mantidos pela UFG (a primeira em 1993), cinco premiações pelo SESI-Arte e Criatividade (nas categorias Conto e Poesia) e o Prêmio “Trabalhador da Indústria” pelo SESI. Participou de duas antologias poéticas publicadas pelo SESI – Serviço Social da Indústria e publicou os livros "Palavra Lavrada", "Transfiguração" e "Manual do Desesquecimento". Fanpage: https://www.facebook.com/paulopazz



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