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Crônica para o meu pai

Por Paulo Pazz



Era mês de novembro, quando as coisas se molham da chuva que Deus cogita sobre o cerrado.


Meu pai, com a lista de proibições: sal, cigarro, cerveja, gordura, frituras e toda uma infinidade de ações e gostos que deveria suprimir de seu cotidiano, abrira os olhos abundantes de expectativas boas, porém turvos de um medo que crescera em demasia, ultimamente.


Treze de novembro, sexagésimo segundo novembro em que ele, como sempre fazia, acordara cedo, antes do nascer do sol, fizera seu cafezinho forte, pouco açúcar, e se assentara no velho tamborete, à espera do dia que se romperia no alto da rua, transbordando luz sobre a cidade.


Zé Bétio, locutor preferido dele, naquela manhã estava diferente. Sua voz apresentava uma luz ligeiramente cansada, mas com o esmero de sempre, falando de otimismo, de esperança e de amor. As músicas daquele dia carregavam meu pai no colo, para dentro de suas lembranças de infância e adolescência e juventude, quando percorria as mesmices da roça.

Não era, na verdade, somente Zé Bétio a estar diferente. Era o dia, era o mês, era a vida... Era meu pai tentando alçar o otimismo para bem acima do medo diante da iminência de uma despedida não quista.


E a despedida veio!


Veio assim, sem palavras, apenas com uma troca de olhares que gritavam silenciosos, entre os silêncios frios dos corredores do hospital São Francisco. E eu, que levara meu pai no fusquinha atopetado de esperanças, voltei trazido por ele, cuja vida se esvaziara de concretude.


Hoje, Pai, fazem vinte e quatro anos que a gente trocou aquele último olhar, que eu lhe disse um ‘Vai com Deus!’, sem atentar que estava dizendo ‘Vai para Deus!


A partir de então, avarandei todos os meus afetos na mesma rede de antes e busco entender o horizonte sob a ótica boa e apaixonada que meu pai empregava em todas as coisas simples do mundo. A partir de então, preencho meus vazios órfãos dele e bebo as memórias que me ajudam a sobreviver entre ausências e saudades.







Autoria



Paulo Pazz é licenciado em Letras pela UFG-CAC, Professor pelo Estado de Goiás e Membro da ACL - Academia Catalana de Letras. Também é revisor e colunista da Revista Portalvip (com circulação em toda região sudeste de Goiás), integrante da Comissão julgadora das Olimpíadas da Língua Portuguesa desde 2014, ator integrante da Cia Express’arte e instrutor de “Contação de Causos" pelo Centro Cultural Labibe Faiad (Catalão/GO). Participou da mesa redonda O fazer Poético e do Sarau de Poesias (ambos do I FLICAT UFG) e do Festival Literário do Cerrado – FLICA (Ipameri-GO), edições I, III e IV. Mantém a Página literária do blog Recanto das Letras, do site da UOL, desde Outubro de 2008. Recebeu oito premiações em concursos literários mantidos pela UFG (a primeira em 1993), cinco premiações pelo SESI-Arte e Criatividade (nas categorias Conto e Poesia) e o Prêmio “Trabalhador da Indústria” pelo SESI. Participou de duas antologias poéticas publicadas pelo SESI – Serviço Social da Indústria e publicou os livros "Palavra Lavrada", "Transfiguração" e "Manual do Desesquecimento".

Fanpage: https://www.facebook.com/paulopazz





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