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Casa Simples

Por Paulo Pazz



Era uma casa simples, de adobe e telhas comuns moldadas nas coxas (feitio aprendido desde o tempo dos escravos).


As duas janelas da frente abertas, como a desafiar as cercas mirradas feitas de bambu, lascas de madeira, ou simplesmente de arames, onde são caetanos entrelaçavam-se, davam frutos e morriam, deixando uma rede acipoada que pássaros se serviam na construção de seus ninhos.


A porta de entrada era rente à calçada, com um ressalto de mais ou menos dez centímetros para a água da chuva não invadir. Ao se passar por essa porta, adentrava-se na sala tão simples quanto era possível ser: um jogo de sofá de napa e uma tv preto e branco.


Do lado esquerdo de quem entrava na casa, uma porta rústica encerrava a intimidade do quarto dos três meninos. Nesse quarto, três camas emparelhadas e um guarda-roupas. O cheiro de sabão preto trazia um gosto bom de limpeza!


Da sala para a copa, de nível mais baixo, havia um único degrau. Uma mesa com seis cadeiras e uma cristaleira antiga era toda a mobília da copa. À esquerda, um quartinho de telhado baixo. À direita, um outro, com uma cama e uma mala-caixa, antecedia o quarto grande do casal.


Ao todo, nove pessoas viviam ali, conforme Deus servia!


Bairro Pio Gomes. Dez ruas desprovidas de asfalto e que pecavam pelo excesso de poeira, principalmente quando o vento vinha varrendo tudo por aqueles corredores. A vizinhança parecia uma família só, vivendo em cortiço. Todos sabiam da vida de todos.


O comércio se resumia a alguns botecos e dois armazéns disputando a clientela exclusivamente de baixa renda. Logo depois vieram os grandes empreendimentos, sendo uma mercearia mais sortida e uma granja que abastecia toda a cidade com ovos e frangos abatidos.


Nesse cenário simples, minha vida foi tocando em frente. Entre as casas de muros baixos, quintais alheios em comum, minha infância foi definhando, virando memória. 


E o adulto que sou continua preso às mesmas limitações de antes, só que sem o encantamento que o tempo e o asfalto soterraram.


A casa de minha infância não existe mais!


Nem meus rastros na terra fofa dos quintais!