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Bola de Gude

Por Paulo Pazz



A chuva batia forte no telhado, respingando para dentro do quarto meio escuro. Sobre uma das três camas - a do meio - Paulinho experimentava um misto de medo e encantamento com os respingos caindo em sua face. Gostava de estar sozinho, principalmente quando a ordem das coisas são alteradas. E aquele dia comportava-se de jeito estranho: primeiro, um sol inclemente; depois, a chuva desesperada, jogando-se contra o chão como suicida.


Paulinho acoberta-se sobre a cama. O aconchego da colcha de linho vai, aos poucos, dando-lhe aquela sensação de proteção do colo da mãe que a tecera.


Saudades!


Paulinho dorme por mais ou menos quarenta minutos e, quando desperta, percebe que a chuva parara. Abre a janela e o sol lança-se para dentro do quarto, trazendo o cheiro bom de terra molhada. Então, pega um litro cheio de bolas de gude e vai para a rua. Girando o calcanhar na terra encharcada, faz um, dois, três, quatro buracos, um em cada extremidade de um quadrado imaginário, separados entre si a uma distância de dez vezes o seu próprio pé.


Quando terminava, Zito chegou com os bolsos do calção abarrotados de bolinhas que barulhavam a cada movimento que fazia.



Aos poucos, a meninada do bairro foi chegando, olhinhos espertos, criando estratégias mudas.


A batalha, enfim, foi armada no tabuleiro arenoso da rua pouco transitada.


— Assim não vale!


— Você está roubando!


— Vamos ser sócios?


— Joãozinho, é sua vez. Anda!


Cezar chupava o nariz a cada papilote que acertava, jogando para longe a bolinha inimiga que se acercava perigosamente do quinto buraco.


Paulinho já estava com o litro quase vazio. Tremia, boca seca, errando as jogadas mais simples.


Quando perdeu sua última bola de gude, arremessou, com fúria, o litro por cima da cerca de bambu, no quintal do "seu" Isaías, fungou um choro doído e entrou em casa, maldizendo a chuva que veio, maldizendo a chuva que se foi.


Paulinho foi inconformar-se com a crueldade da vida, acobertado no aconchego da colcha de linho que lhe dava sensação do colo da mãe que se foi para Deus, numa tarde de chuva como aquela.




Autoria



Paulo Pazz é licenciado em Letras pela UFG-CAC, Professor pelo Estado de Goiás e Membro da ACL - Academia Catalana de Letras. Também é revisor e colunista da Revista Portalvip (com circulação em toda região sudeste de Goiás), integrante da Comissão julgadora das Olimpíadas da Língua Portuguesa desde 2014, ator integrante da Cia Express’arte e instrutor de “Contação de Causos" pelo Centro Cultural Labibe Faiad (Catalão/GO). Participou da mesa redonda O fazer Poético e do Sarau de Poesias (ambos do I FLICAT UFG) e do Festival Literário do Cerrado – FLICA (Ipameri-GO), edições I, III e IV. Mantém a Página literária do blog Recanto das Letras, do site da UOL, desde Outubro de 2008. Recebeu oito premiações em concursos literários mantidos pela UFG (a primeira em 1993), cinco premiações pelo SESI-Arte e Criatividade (nas categorias Conto e Poesia) e o Prêmio “Trabalhador da Indústria” pelo SESI. Participou de duas antologias poéticas publicadas pelo SESI – Serviço Social da Indústria e publicou os livros "Palavra Lavrada", "Transfiguração" e "Manual do Desesquecimento".

Fanpage: https://www.facebook.com/paulopazz








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