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Acontecimentos

Por Gisele Silva


Olhar infantil

“Um acontecimento vivido é finito, ou pelo menos encerrado na esfera do vivido, ao passo que o acontecimento lembrado é sem limites, porque é apenas uma chave para tudo que veio antes e depois. ”  Walter Benjamim.



Oba! Finalmente chegou o dia do passeio!

Tia, cadê o ônibus?

Ai, tá demorando muito...

Chegou, chegou! O ônibus chegou!


Rumamos para o "Centro Cultural Banco do Brasil”. Objetivo: Exposição “Obsessão Infinita”. Um pouco de cultura e arte para os alunos das turmas de 3º e 4º anos. Chegamos ao CCBB, expectativas, surpresas, encantamento. Fomos recebidos por uma arte educadora que fez algumas perguntas e explicou o que iríamos ver e fazer.


Na primeira sala após uma conversa sobre a artista Yayoi Kusama. os arte educadores propuseram que em duplas, as crianças escrevessem o que a forma geométrica círculo dizia para eles. A partir disso foi formada uma “rede” com barbante sustentando as palavras ditas. Amizade, carinho, universo, foram algumas das palavras com as quais as crianças expressaram tudo o que seria infinito para elas. Os alunos da 1302, lembraram que já havíamos feito uma atividade semelhante.


Após a dinâmica as turmas iniciaram a visita às salas com as obras de Kusama. O primeiro quadro, todo feito com bolinhas coloridas chamou a atenção deles, acharam bonito, diferente e enxergaram formas no emaranhado de bolinhas. Olharam com olhos de ver.


A ideia de fazer este relato surgiu a partir da visita à segunda sala. A sala dos quadros intitulados: “Redes Infinitas”.


A arte educadora sugeriu uma roda e que dessem as mãos aos colegas que estavam longe e tentassem alcançar com os pés tantos outros. Os comentários, permeados de risos, foram: “Nossa não consigo chegar até lá”; “Ai, vou cair!”; “Vai não, te seguro”. “Formamos uma escultura, uma rede humana...” Ao ouvir isso a arte educadora parabeniza-os pedindo que desmanchassem a obra que haviam acabado de fazer. Em meio às explicações sobre os quadros, rodeada de olhinhos curiosos, a arte educadora diz o que Kusama pensou ao idealizar os quadros:


“Somos pequenos organismos que unidos formamos uma REDE, igual a que vocês fizeram agora”.


Então Marcelo me abraça e diz simplesmente: "Ih tia igual a gente!”, fazendo uma conexão entre a escultura humana que haviam acabado de fazer e a atividade que fizemos na escola. Ou ainda me permito dizer, a nossa rede de conhecimentos e experiências vivenciadas todos os dias.


Quanto conhecimento essa simples afirmação encerra? Impossível de mensurar. Ver as crianças observando os quadros, fazendo perguntas, surpreendendo a arte educadora que os acompanhava, se inscrevendo no mundo de uma forma diferente. Realizando comparações, tomando para si a palavra dita, vivenciada, potencializada.


Visitávamos uma exposição de uma artista que apresenta um transtorno obsessivo compulsivo, que repete formas, e mora em uma clinica psiquiátrica! Loucura e arte caminhando juntas. E crianças totalmente desprovidas de preconceitos, descobrindo pessoas, formas, vida, sonhos, em obras nascidas de alucinações.


Questiono-me.


Não somos loucos obsessivos também quando investimos em estratégias de ação que transformem as experiências cotidianas em redes de significação?


Não somos loucos obsessivos também quando insistimos que todo conhecimento advindo da experiência nos potencializa, nos (auto-trans) forma, nos obriga, nos movimenta a pensar?


O que vivenciei no CCBB, extrapolou qualquer teoria. Foi mais uma imprevisibilidade do cotidiano com a qual estamos sempre nos deparando. Foi um acontecimento vivido, prenhe de emoção que será sempre relembrado, sem limites, pois como nos diz Benjamim, “é apenas uma chave para tudo que veio antes e depois...”.


Texto escrito em 2013.



Menino com escultura de ferro


 

Autoria


Gisele Silva

Gisele Silva é Pedagoga que atua com professoras e alunos de uma Escola Especial para Autistas em São João de Meriti. Professora dos anos iniciais na cidade do Rio de Janeiro. Pós Graduada em Alfabetização das Crianças das Classes Populares pela UFF. Faz parte do Coletivo “Encantadores de Letras”. Autora do Projeto “Caixa de Encantamentos” que incentiva a leitura, estimulando a percepção, a imaginação e o fazer criativo. Iniciou o caminho como escritora em 2019 publicando 3 livros de literatura infantil e participando com dois textos na coletânea "Vozes Negras: tecendo a resistência".


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