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Um livro para chamar de seu

Por Fabiana Esteves



O caso da menina de dez anos estuprada trouxe à tona a necessidade de procurar meios de alertar as crianças sobre toques inadequados, a fim de que elas possam identificar as situações de abuso. E começaram a compartilhar  uma série de materiais para este fim. Um deles foi um livro infantil em PDF. A autora ficou muito chateada e expressou sua indignação nas redes sociais. Justo. Compartilharam uma versão que nem estava completa, sem autorização e sem o cuidado editorial que caracteriza o seu trabalho. No entanto, este fato só veio mostrar o quanto a população carece de acervo literário dentro de casa. Por que os professores estão contando histórias em vídeo ou compartilhando PDFs? Nem todos os alunos têm livros em casa.


As Bibliotecas  são importantes? Sim, muito. As Salas de Leitura são importantes? Sim, claro, essenciais. Muitos escritores só se formaram como tal através destes espaços. Faltava-lhes acervo em casa. Afinal, por que as autoridades competentes ainda não se conscientizaram da importância de comprarem livros para distribuição gratuita, principalmente os que tratam de temas relevantes como o abuso sexual na infância?  Na mesma hora lembrei de um programa do governo intitulado "Literatura em minha casa", em que os exemplares chegavam às escolas no intuito de formar este acervo que faltava. Como tudo que é bom neste país, o projeto acabou. A lacuna, que já era imensa, virou abismo novamente.


Em 2019, no entanto, uma luz se acendeu com o PNLD Literário, e chegaram livros para o acervo pessoal das crianças. Não para todas, é claro. Só para os mais velhos. Talvez porque pensassem que as crianças que ainda não lêem sozinhas não precisariam. Ledo engano. Mas, de toda forma, foi um avanço. Guardei na memória o momento em que cheguei na escola, um dia depois da distribuição dos livros. Vieram me avisar que as crianças estavam me esperando para mostrar as leituras que fizeram, e qual não foi a minha surpresa (e alegria) ao entrar em uma sala de aula e ouvir: "Tia, olha, aqui, esse é o meu, eu já coloquei meu nome, eu já li um monte de vezes, é muito lindo". Era dela o livro. Ela fez questão de colocar seu nome, que vinha acompanhado de corações e flores que ela desenhou ao lado. Não era preciso devolver. Era dela. Eu me emocionei.


Assim como no dia em que minha editora fez uma doação de exemplares do meu livro infantil para uma Biblioteca Comunitária e eu fui convidada a entregar numa solene e divertida tarde de autógrafos. As crianças olharam nos meus olhos e duvidaram de tamanha dádiva. "É meu mesmo? Posso levar pra casa?" Sim, era dela. Finalmente ela tinha um livro só dela, um livro para chamar de seu.


Nas fotos acima, Fabiana Esteves, com seu livro "A Colecionadora de Barcos", em uma Biblioteca Comunitária.



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