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Será que vai demorar?

Por Fabiana Esteves



Ísis teve o diagnóstico de autismo aos oito anos. Sua leitura tem particularidades, sempre me surpreendo, claro que devido à minha ignorância em relação ao assunto. Ela se alfabetizou já tinha nove anos e mesmo assim, as dificuldades permaneciam imensas. Muito estudo, muitas indagações me acompanhavam, continuo entendendo muito pouco do tema. Eu me intrigava dela ter um repertório gigante de palavras memorizadas e de, ao mesmo tempo, chorar diante de uma palavra "aparentemente" simples.


Tenho certeza de que, nos métodos tradicionais de alfabetização, ela jamais teria aprendido a ler. O cérebro dela contraria todos os passos pré-estabelecidos de qualquer método, até porque todos eles ignoram o processo de construção de conhecimento das crianças (e adultos). Eu e a escola insistimos na práticas sociais de leitura e escrita: aprender a ler, lendo; aprender a escrever, escrevendo. Será que vai demorar? Não sabíamos, mas passamos a não nos preocupar com isso depois da dica de uma especialista em alfabetização: "Não importa QUANDO, e sim COMO". Foi o alento que precisávamos. Seguimos.


Muita coisa eu fui descobrindo com ela mesma, depois que passou a tentar explicar o que se passa na sua mente. Agora sabemos que lendo sozinha ela não consegue entender o assunto. Ela precisa ouvir o texto em voz alta. Precisa também de auxílio para escrever, pois os seus erros ortográficos a fazem desanimar durante a redação. Descobrimos que a música ajuda na concentração durante a tarefa. Descobrimos também que ela possui deficiência intelectual leve, o que nos fez entender a maior necessidade de ajuda que ela sempre mostrou precisar.


As tecnologias trouxeram apoio. Ensinei a usar os documentos do Google e os recursos de fala para texto. Nas provas de seleção para o sexto ano, uma ela fez sem adaptação nenhuma e a outra fez prova adaptada. Na adaptada, seu desempenho foi muito superior. No entanto, como me lembrou minha amiga, faltou considerar a dificuldade que os autistas têm em entender a linguagem figurada. Nem tudo pode ser perfeito. A inclusão é nova, e muitas vezes fica só na teoria. Naquela época as minhas filhas só pegavam o celular aos sábados e domingos. Por sugestão de uma psicopedagoga que me pediu para usar o celular como moeda de troca, liberei o celular por mais tempo e o resultado foi incrível. Ela desenvolveu autonomia na leitura e interesse por outras línguas. O aplicativo que ela ama é todo em inglês ou legendado em português e serve para transformar histórias em quadrinhos em vídeos. Como moeda de troca o celular não funcionou, é claro. Mas o desenvolvimento dela na leitura e escrita foi notável, e rápido. Escreve poemas, cria histórias em quadrinhos e entende o básico de inglês.


O mais fantástico é que embora ela saiba que precisa que alguém leia em voz alta para entender o que está escrito, não desiste da leitura. À noite, antes de deitar, ela pega o primeiro volume de Percy Jackson e tenta ler sozinha. Há meses que ela não sai das primeiras páginas, mas faz questão de comentar, com orgulho, detalhes da trama, para mostrar que está compreendendo. Faz questão de mostrar para a gente que, não apesar de todas as suas diferenças, mas sim por causa delas, ela se encaixa SIM nesta família louca por livros.



Nas fotos acima, Ísis, filha de Fabiana Esteves.