Para receber novidades, inscreva-se:

Obrigado pelo contato!

Este é um blog de participação espontânea e colaborativa.

As opiniões aqui emitidas não refletem o pensamento da Editora.

Quando tudo isso acabar...

Por Fabiana Esteves


Quando isso tudo acabar e os anos de juventude inaugurarem novamente nossas vidas, elas vão lembrar, com certeza, deste meu tempo em casa. Deste mais tempo meu em casa… Das manhãs assistindo pregações na TV, das rezas do terço Mariano, do cheiro das frutas e do pão quando chegam as compras, do cheiro da laranja pera que teimei em descascar depois de todas as refeições para imitar minha avó… Dos banhos obrigatórios assim que chegamos da rua, da lavagem cuidadosa das máscaras com estampas de santos, dos festivais de filmes franceses sempre no nosso cardápio cinéfilo... Lembrarão de todos os meus pequenos atos, até da minha insistência para dobrar e guardar as roupas, infinitamente empilhadas no colchão… Das lives que fiz com os amigos para encurtar a saudade da vida literária, do pai desmontar o quarto inteiro para alcançar espaço para as aulas de dança on line, do pai pedindo (sempre) para comprar água e até das minhas lutas para me acostumar às reuniões de trabalho no Google Meet.


Tanto vão lembrar que será impossível não incluir estes pequenos fatos em seus diários, redações, seus futuros livros, seus desenhos e rabiscos que farão no canto dos cadernos enquanto assistem às aulas no Ensino Médio. Nos versos das letras de músicas que vão preencher os fones no transporte público, eu também estarei presente, eu e este meu tempo longo em casa. E assim como lá atrás, na primeira infância, acontecia a cada dia em que eu partia para mais um dia de trabalho, a cada dia de despedida breve, acontece de novo agora, no meu primeiro dia de volta à rotina na rua: "Mãe, não vai…"


A minha estadia prolongada aqui neste pequenino apartamento de apenas quarenta metros quadrados se aparenta mais necessária do que eu realmente imaginava que fosse… As mensagens me perseguem no WhatsApp para ter certeza que estou no trajeto certo, aquele que me traz de volta: "Que horas você vai chegar, mãe?"


Eu volto tarde, trago gibis e mashmellows. Entro no banho para que o corpo libere o abraço e o cansaço me fecha os olhos antes do que eu gostaria, antes que terminem os rituais noturnos, antes da leitura da Bíblia e da oração ao Anjo da guarda.


Quando tudo isso acabar estará inaugurado o tempo de estar junto. Mas o meu tempo de estar com os meus é agora, antes que as lutas da vida nos arranquem os ponteiros do relógio.


Na imagem acima, a partir do topo: Na primeira foto, Fabiana Esteves. Na segunda foto, Andreia Marques, Fabiana Esteves e sua filha Ísis na live de lançamento do livro infantil "Coisas de Comer, de Sentir e de Vestir". Na terceira foto, Laís, filha de Fabiana Esteves, durante sua aula de dança online.



Autoria