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Procissão

Por Paulo Pazz


Naquela cidadezinha, uma parte da população mobilizava-se em romaria, rumo ao Morro das Três Cruzes (imitação sertaneja do Gólgota). Eram algumas senhoras de todas as idades que batiam lata nas pedras do "corguinho", apanhando uma água esverdeada.


— Louvado seja Deus! Que nosso pedido chegue aos ouvidos do Senhor e Ele mande chuva para nós!


Naquele ermo do cerrado, a cada dia passado, a chuva parecia mais distante e sofridamente mais necessária.



A romaria seguia morro acima. Algumas mulheres, mais crédulas de que seu martírio surtiria efeito, seguiam, de joelhos, pelo trieiro, rumo ao pequeno monturo. As feridas eram inevitáveis e o sangue escorria pelas pernas em filetes de amargura e esperanças.


Havia também um monte de crianças, umas se divertindo e outras chupando um choro de "mãenãoqueroir", fazendo barulho entre os arbustos raquíticos que tentavam encobrir o morro de terra cascalhenta.


— Deus tenha piedade de nós! Mande a chuva, Senhor!

“Bendito, louvado seja,

O Santíssimo Sacramento.

Os anjos, todos os anjos

Louvem a Deus para sempre,

Amém.”


O trajeto curto se acompridava com o cansaço e com os efeitos do sol inclemente nos ombros daquelas donas de casa que abandonaram seus lares para cuidar de aguar o pé da cruz. Desfiavam cantigas de profissão de fé e de suas bocas escorriam clamores, lambendo as agonias da alma.


Outras mulheres não levavam latas de água na cabeça. Com véus negros sobre a cara contrita, elas incumbiam-se de dedilhar o terço, puxando a ladainha carregada de intermináveis Ave-Marias e Pais-Nossos.


Ao chegarem no alto, ao pé da cruz, o rito prossegue por mais algum tempo, enquanto as latas são esvaziadas, no mesmo compasso em que o coração transborda fé e esperança.

Terminada a profissão de fé, um trovão cavalga no céu agora acinzentado.


— Valha-me Deus que sempre nos valeu! — Balbucia uma anciã de rosto gretado, cuja pele queimada pelo sol mais parece um papiro.




Aquela dezena de pessoas desce em debandada e recolhe-se nas casas para ouvir a chuva estalando nos seus telhados pobres.



Autoria



Paulo Pazz é licenciado em Letras pela UFG-CAC, Professor pelo Estado de Goiás e Membro da ACL - Academia Catalana de Letras. Também é revisor e colunista da Revista Portalvip (com circulação em toda região sudeste de Goiás), integrante da Comissão julgadora das Olimpíadas da Língua Portuguesa desde 2014, ator integrante da Cia Express’arte e instrutor de “Contação de Causos" pelo Centro Cultural Labibe Faiad (Catalão/GO). Participou da mesa redonda O fazer Poético e do Sarau de Poesias (ambos do I FLICAT UFG) e do Festival Literário do Cerrado – FLICA (Ipameri-GO), edições I, III e IV. Mantém a Página literária do blog Recanto das Letras, do site da UOL, desde Outubro de 2008. Recebeu oito premiações em concursos literários mantidos pela UFG (a primeira em 1993), cinco premiações pelo SESI-Arte e Criatividade (nas categorias Conto e Poesia) e o Prêmio “Trabalhador da Indústria” pelo SESI. Participou de duas antologias poéticas publicadas pelo SESI – Serviço Social da Indústria e publicou os livros "Palavra Lavrada", "Transfiguração" e "Manual do Desesquecimento".


Fanpage: https://www.facebook.com/paulopazz

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