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Leitura fabulosa

Por Fabiana Esteves


Menina lendo um livro sorrindo

Tanto a Ísis quanto a Laís tiveram processos bem particulares de alfabetização. Bem mais tarde do que se esperava para as filhas de uma especialista no assunto como eu. Não tínhamos ainda o peso do diagnóstico (no caso da Isis do autismo e da deficiência intelectual), então assumi e sofri a culpa pela demora. Ísis, mesmo já alfabetizada, insistia em dizer que não sabia ler. Eu retrucava: "Você pensa que não pode ler palavras que não tem guardadas na memória, mas você pode!" Na época expliquei que nós também não temos todas as palavras de memória. Ela me perguntou: "Como você adivinhou que eu estava pensando isso?" Eu respondi que é porque a conheço como a palma da minha mão… Continuando a conversa, fui explicando que todos nós temos dentro da nossa cabeça uma bolsinha cheia de palavras que nós sabemos de cor. Essa bolsinha se chama LÉXICO. E a gente só consegue encher a bolsinha quando a gente lê muito. Quanto mais a gente lê, mais a bolsinha fica cheia…


Não sei se ela entendeu. Não sei se até hoje ela tenha clareza de como se deu este processo.


Nesta época eu tentava entender como o cérebro dela processava a linguagem escrita e sempre me surpreendia. Quando ela olhava determinada palavra e não a conhecia, era desespero na certa. Com jeito, fui encorajando a pedir ajuda, a ter paciência consigo mesma… E assim a bolsinha foi se enchendo cada vez mais de palavras…


"Ísis, quem tem a maior bolsinha de palavras aqui em casa?" perguntei.

Prontamente ela respondeu que era eu. "Você é quem mais lê nessa casa, mãe!"


Depois dessa conversa ela sentou para ler uma revista em quadrinhos com a Laís e a irmã foi ajudando nas palavras que ela não sabia de memória. Aconteceu de novo, de novo e de novo… E fomos percebendo que ela passou a usar uma nova estratégia sempre nas leituras: diante de uma palavra desconhecida começou a buscar um sinônimo. Estava escrito "fantástica'', ela lia "fabulosa". Estava escrito "cintilante'', ela lia "reluzente". Antes de pensar se estava certo ou errado eu já estava encantada. Porque não tem nada mais incrível, mais fabuloso, mais reluzente do que uma criança que tem seus processos (únicos e particulares) de aprendizagem respeitados.



Fotos das filhas de Fabiana Esteves em leitura

Na imagem acima, a partir do topo e no sentido horário: Na primeira foto, Fabiana Esteves e sua filha Ísis. Na segunda foto, Ísis lendo em uma livraria. Na terceira foto, Laís lendo para Ísis.



 

Autoria


Autora Fabiana Esteves

Fabiana Esteves é Pedagoga formada pela Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (UNiRIO) e Especialista em Administração Escolar. Trabalhou como professora alfabetizadora na Prefeitura do Rio de Janeiro e no Estado do Rio com Educação de Jovens e Adultos. Trabalhou como assessora pedagógica e formadora nos cursos FAP (Formação em alfabetização Plena) e ALFALETRAR, ambos promovidos pela Secretaria de Educação do mesmo município. Também foi Orientadora de Estudos do Pacto pela Alfabetização na Idade Certa, programa de formação em parceria do município com o MEC. Em 2015 coordenou a Divisão de Leitura da SME de Duque de Caxias (RJ). Atualmente, é Orientadora Pedagógica da Prefeitura de Duque de Caxias, onde tem se dedicado à formação docente. Escritora e poeta, participou de concursos de poesia promovidos pelo SESC (1º lugar em 1995 e 3º lugar em 1999) e teve seus textos publicados em diversas antologias pela Editora Litteris. Escreve para os blogs “Mami em dose dupla” e “Proseteando”. Publicou os livros “In-verso”, "Pó de Saudade", "Maiúscula", "A Encantadora de Barcos" e "Coisas de Sentir, de Comer e de Vestir". É mãe das gêmeas Laís e Ísis.



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