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Crônicas para laçar um interesse perdido

Por Fabiana Esteves



Mesmo à distância, ela não perde o hábito. Recorta crônicas para que eu leia. Quando morávamos na mesma casa, ela entregava a crônica a cada um e esperava a reação. Meu pai tirava os óculos para enxugar as lentes tanto no riso quanto na lágrima. Eu idem. Imitava. Mas ela só ficava satisfeita quando os comentários brotavam e davam liga para as conversas durante a refeição. Dependendo do texto, poderia gerar uma discussão inflamada ou suspiros engasgados que deixam a gente sem saber o que dizer. 


Esta semana mesmo recebi uma, do Gabriel Chalita. Recheada de infância e doçura. Precisamos. Com o distanciamento social ela não usou a tesoura. Dobrou a folha, tirou uma foto e enviou por mensagem. Mas antes ligou para anunciar a chegada das palavras.


Há tempos atrás muitas das crônicas eram da Marina Colasanti, no Jornal do Brasil. Quando encontrei a Marina pessoalmente, numa feira literária, contei  do hábito materno semanal de recortar as crônicas escritas por ela para me presentear. Marina sorriu: "Mas então sua mãe criou uma feminista!" Sim, criou. Mas antes de me tornar uma feminista eu me tornei uma leitora voraz. 


Ao me afastar, a emoção invadiu como quem no tempo volta. As crônicas de jornal permeiam a nossa existência como um elo que nunca se rompe, um tecido indesfiável, incorruptível. Cheguei  ao cúmulo de tremer de desejo, desejo de surrupiar uma página de revista perdida na sala de espera de  algum consultório médico. Coragem que eu gostaria de ter quando leio algo que me encanta e quero para mim.


Em nossa estrada de crônicas já passamos por Veríssimo, João Ubaldo e Martha Medeiros. Choramos com Carpinejar e Miguel Falabella. Talvez por isso o sonho tão inquieto eu acalentava de ter uma coluna semanal. Agora tenho, mas em terras digitais, território ainda pouco explorado por ela. Mas e daí? Entrei para o seleto time dos autores que ela lê semanalmente.


Embora lhe falte a tarefa lúdica do recorte que compartilha, seguimos dividindo as leituras de domingo. E as do resto da semana, se ela encontrar crônica que mereça alguns minutos do meu tempo atribulado. E cobra: "Já leu?" Eu já não compro mais jornais. Aqui em casa compartilho pelo WhatsApp mesmo. Temos um grupo só para nós quatro. Mas faço como aprendi: preparo o terreno antes, porque coração desavisado pode não se apaixonar, e o perigo da indiferença mata qualquer tipo de amor que ainda não nasceu direito.


Na foto acima, Fabiana Esteves autografando seu livro In-verso para sua mãe Leila Esteves. Na foto abaixo, uma das crônicas de Gabriel Chalita, publicada em um jornal de grande circulação.



Nada melhor do que um retrato breve e intenso do cotidiano para laçar um interesse perdido. Quer tentar?



Autoria



Fabiana Esteves é Pedagoga formada pela Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (UNiRIO) e Especialista em Administração Escolar. Trabalhou como professora alfabetizadora na Prefeitura do Rio de Janeiro e no Estado do Rio com Educação de Jovens e Adultos. Trabalhou como assessora pedagógica e formadora nos cursos FAP (Formação em alfabetização Plena) e ALFALETRAR, ambos promovidos pela Secretaria de Educação do mesmo município. Também foi Orientadora de Estudos do Pacto pela Alfabetização na Idade Certa, programa de formação em parceria do município com o MEC. Em 2015 coordenou a Divisão de Leitura da SME de Duque de Caxias (RJ). Atualmente, é Orientadora Pedagógica da Prefeitura de Duque de Caxias, onde tem se dedicado à formação docente. Escritora e poeta, participou de concursos de poesia promovidos pelo SESC (1º lugar em 1995 e 3º lugar em 1999) e teve seus textos publicados em diversas antologias pela Editora Litteris. Escreve para os blogs “Mami em dose dupla” e “Proseteando”. Publicou os livros “In-verso”, "Pó de Saudade", "Maiúscula" e "A Encantadora de Barcos". É mãe das gêmeas Laís e Ísis.

Blog: http://fabianaesteves.blogspot.com






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