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Coração azul também sangra

Por Fabiana Esteves



Coração de mãe de autista dói. A Ísis está realmente difícil de dormir cedo. Esta pandemia bagunçou a vida dela, está sem escola, sem atendimento psicológico, somente a terapeuta ocupacional segue acompanhando on line. As aulas de dança às vezes ela faz, mas gosta mesmo é de sapateado, e essa modalidade não rola on line. E mesmo se rolasse, seria uma maneira de enlouquecer de vez meus vizinhos de baixo…


Até eu estou com problemas pra dormir… As dificuldades não se resumem ao sono, mas também ao controle emocional, à seletividade alimentar, ao ensino remoto, aos cuidados pessoais… Não posso levá-la para espairecer as ideias lá fora porque as duas têm asma, são grupo de risco e já ficaram internadas sucessivas vezes por infecção respiratória. E estar em casa para ela é sinônimo de estar de férias.  Não é fácil convencê-la de que mesmo assim, há horários a respeitar e tarefas a cumprir. Quer conversar comigo animadamente às duas da manhã. Quer escutar suas músicas 24 horas por dia. Nem filmes ela tem paciência de assistir. A escola sugeriu um e ela conseguiu assistir conosco. Foi o único. Vídeos no YouTube são mais atraentes. 


Eu insisto nas regras e, é claro, ela se revolta. Os deveres ela quer apenas copiar. Eu insisto e quero apenas a resposta. "Mas a minha professora vai reclamar, ela quer que eu copie!" Copiar é mais fácil. Copiar não representa desafio para ela. Sempre foi preocupada com a melhor caligrafia. Eu insisto, é claro, e ela se revolta. Desisti de insistir de madrugada, pois os vizinhos de baixo reclamam do barulho e estarei protegida se ela resolver atirar algum objeto longe… Desligo tudo, ficamos em silêncio e esperamos que ela vá se arrumando para dormir. Vou rezando o terço e assim que ela se ajeita, lemos a Bíblia juntas. Em seguida ela quer conversar, conversar, conversar… Tento adiar o papo para o dia seguinte. Nem sempre consigo.   


Estamos lendo em família o livro "O que me faz pular", escrito por um menino autista de 13 anos e é impressionante como ela se reconhece em cada capítulo. Ele conta que sua memória é uma grande piscina de bolinhas, e como é difícil encontrar a bolinha certa para cada ocasião. Ela se identificou. Logo que terminarmos a leitura, planejamos uma live sobre esse livro. Do mesmo jeito que nos ajuda, pode ajudar muitos pais a compreenderem melhor seus filhos.


Mas receita de bolo, não tem. Todos os dias vamos aparando as arestas. Ela escreve seus poemas e desenha nas paredes quando não há ninguém olhando. É uma situação atípica. Nenhum de nós esperava por isso. E para mim, a saúde está em primeiro lugar.  Temo dar um passeio lá fora e terminar numa UTI. Enquanto isso, conversamos, contamos histórias e insisto (sempre) nas regras. Muitas vezes assumindo (fazer o quê?) o rótulo de mãe chata. É a parte que me cabe neste latifúndio de quarenta e dois metros quadrados



Nas fotos, Fabiana Esteves e sua filha Ísis