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Aprisionar os livros é construir cárceres para as crianças

Por Fabiana Esteves



O professor José Pacheco deu uma entrevista ao vivo para a Appai semana passada. Incrível! Preciso assistir diversas vezes para guardar no coração as palavras a fim de que as coisas tradicionais da educação me incomodem mais ainda, me incomodem tanto que chegue a doer. E dor a gente não ignora. É um caminho.


Palavras que dizem verdades, que mostram o quanto as Secretarias de Educação engessam o nosso fazer pedagógico. Mas por que aceitamos? Questionar e escutar o que o professor José nos fala já é um passo. Ele tem razão. Precisamos trazer Paulo Freire para dentro das escolas. Infelizmente ele só figura mesmo nos trabalhos acadêmicos.


Uma frase me chamou atenção: "...as Bibliotecas das escolas ou estão vazias, trancadas ou são locais de castigo…" Na maioria das vezes, é verdade, embora eu acredite que há muitas exceções. Na escola onde trabalho fico feliz em dizer que não é esta a realidade. Mas por quantas passei ou visitei e me indignei com as portas trancadas? Aprisionar os livros é construir cárceres para as crianças.


No antigo ginásio, estudei em um colégio de freiras. Fiquei um bom tempo sem tomar conhecimento que existia lá uma biblioteca. Até que um dia precisávamos ver um filme, e nos levaram lá. Foi o único dia que entrei. O filme era Poliana. Lembro-me como se hoje fosse. Qual não foi o meu assombro ao encontrar os livros, lindos e bem cuidados, fechados em cristaleiras, trancados a chave. Achei triste.


Ninguém achou prudente abrir as gaiolas de vidro para que nossas mãos pegassem os tesouros escondidos nas páginas. Eu teria 13 anos e era uma leitora voraz. Mas havia  a professora Leile, de Língua Portuguesa. Seria coincidência ela ter um nome tão parecido com o da minha mãe, Leila? Seria coincidência a mesma cor de cabelo? Seria coincidência ela portar a mesma inquietação que era natural na minha mãe? Ela não se conformou e trouxe para a sala uma caixa, de onde ela tirou o meu maior objeto de desejo de toda a vida: Tchau, da Lygia Bojunga. O seu relato me cativou de tal modo que eu desejei aquele livro para chamar de meu. Não tive coragem de pedir emprestado, nunca tive. A caixa era para isso mesmo, mas eu era por demais tímida para chegar a tal proeza. O meu amor pela obra da Bojunga começou ali, pelo relato da professora Leile, que carregava o nome, a cor de cabelo e a inquietação da minha mãe.


Um tempo depois, o livro da prova era Bojunga, "Angélica" . Foi meu primeiro. Depois vieram outros, e a minha mãe achou por bem comprar outro, e outro, e outro… Li a obra toda da Bojunga. Uma paixão. E tudo começou com a inquietação de uma professora que não conseguiu abrir as gaiolas de vidro, mas trouxe uma caixa. Se não posso quebrar as correntes da porta da frente, eu dou a volta e entro pelos fundos. Até o dia de sonho em que não haverá gaiolas nem correntes. 


Em uma das fotos acima, Laís, filha de Fabiana Esteves.