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A Viagem de Chihiro

Por Gilson Salomão Pessôa


A animação japonesa, apesar de alguns projetos de caráter comercial, tem construído belíssimas histórias, sendo a maioria delas centrada na evolução do espírito e sua comunhão com a natureza que o cerca, elevando desta forma a compreensão existencial a um nível que transcende o materialismo pós-moderno.


Dirigida por Hayao Miyazaki, a seguinte projeção conta a história de Chihiro, uma menina infeliz com a mudança para outra cidade. Viajando para a nova casa com seus pais, eles acabam se perdendo e encontram uma vila que apesar de abandonada possui enormes quantidades de comida fresca e quente à mostra.


O casal faminto não resiste à tentação, mas a garota sente que há algo errado. Continua explorando e encontra um garoto assustado que diz que ela precisa sair dali antes de escurecer. Mas é tarde demais. Ela nota que seus pais foram transformados em porcos e as saídas foram bloqueadas.


A cidade aparentemente vazia é um local aonde os espíritos vão à noite para repousar e humanos não são permitidos. O casal glutão foi punido por violar o alimento das entidades. Agora a garota precisa fazer um pacto com a perversa bruxa Yubaba para reverter o feitiço e voltar para o mundo dos humanos.


Como pode ser notado, a trama é adulta e sombria, não recomendada para crianças. Apesar do traço leve do desenho, algumas sequências contém uma enorme carga de suspense. Um crítico se referiu a esta película como “a versão de David Lynch para Alice no país das maravilhas” e a afirmação procede.


A qualidade da animação é excelente e toda feita à mão. Os cenários são belíssimos, com destaque para seqüência da ferrovia submersa. A belíssima trilha sonora vem para aperfeiçoar este poema visual recheado de metáforas sobre a decadência da nossa civilização e a transcendência da alma como caminho para a redenção.


O perfil dos personagens também é muito bem trabalhado. A protagonista que a princípio se revela tímida e insegura amadurece bastante ao longo da narrativa tomando iniciativas e resolvendo os problemas que eventualmente vão surgindo.


O misterioso espírito sem rosto é fascinante, porque ele só consegue se relacionar com os outros usando pepitas de ouro, caso contrário é ignorado. Sua predileção pela personagem do título vem do fato de que a mesma gosta dele independente de suas riquezas.


Outro ponto interessante a ser comentado está centrado no pacto entre a garota e a feiticeira, dona de uma casa de banhos para espíritos: ela ganha um emprego lá, mas recebe outro nome. Quanto mais tempo ela ficar, acabará se esquecendo de sua verdadeira identidade e quando menos perceber estará presa naquele mundo para sempre, perdendo desta forma sua essência.


Animações como essas são mais que necessárias frente à realidade atual tão repleta de um decadente materialismo funcional, onde nosso espírito se rendeu às praticidades impulsionadas pelo dinheiro enquanto vai se dissolvendo num frágil cotidiano recheado de pequenas decisões que revelam muito do corpo e pouco da alma.



Autoria



Gilson Salomão Pessôa é jornalista formado em Comunicação Social pela Universidade Federal de Juiz de Fora, com Pós Graduação em Globalização, Mídia e Cidadania pela mesma faculdade. Publicou os livros "Histórias de Titãs Quebradiços" e "Um Suspiro Resgatado".


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