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A Lenda do Cavaleiro Sem Cabeça

Por Gilson Salomão Pessôa



O cineasta Tim Burton é fã confesso do genial escritor Edgar Allan Poe, que usou o sobrenatural como espelho da crua natureza humana, trazendo à tona todas as nossas imperfeições e segredos. A película a seguir revela inúmeros traços desta influência.


Inspirada no conto de Washington Irving, a narrativa gira em torno de Ichabod Crane, um inspetor de polícia na Nova York de 1799, desacreditado por seus colegas de serviço por sua insistência em fazer uma investigação científica dos crimes ao invés de fundamentar as acusações em depoimentos de terceiros.


Cansado das constantes intervenções do mesmo durante os julgamentos, o juiz o envia à comunidade agrária isolada de Sleepy Hollow, onde várias pessoas estão sendo decapitadas sem nenhuma razão aparente.


Apesar das advertências dos moradores de que o assassino é um cavaleiro sem cabeça que veio do mundo dos mortos para saciar sua sede de sangue, o investigador está decidido de que a racionalidade está envolvida de alguma forma nesta equação.


Na medida em que a história se desenvolve, o protagonista tem suas convicções colocadas à prova, bem como sua trágica infância revisitada.


A montagem do diretor cria um ambiente sombrio, devastado, espectro da atmosfera de intrigas que envolvem os habitantes do vilarejo.


O constante conflito entre religião e paganismo foi um tema inteligentemente abordado e que cria um contexto propício para o desenrolar da história.


O racional se choca com o espiritual a ponto de se fundir com ele, criando uma situação onde não é possível determinar onde um começa e o outro termina.


A trama é tecida com engenhosidade e a notória elegância do cineasta ao lidar com o macabro e o sombrio é comprovada nos belíssimos planos em contra-luz e enquadramentos, com destaque para a seqüência dos créditos iniciais, onde acompanhamos a carruagem levando Ichabod à cidade assombrada.


Os menores detalhes revelam pistas importantes para que o mistério seja desvendado.


O cuidado no desenvolvimento dos personagens é um traço interessante que merece a devida atenção, especialmente no que se refere aos trejeitos do protagonista, interpretado com excelência por Johnny Depp. Apesar de seguro quanto às suas afirmações é curioso ver o mesmo tendo asco ao lidar com cadáveres. Seus constantes desmaios contribuem para lhe conferir um carisma ímpar, pois suas inseguranças não o ridicularizam, mas o tornam mais humano.


O restante do elenco está igualmente inspirado, especialmente os veteranos Miranda Richardson e Michael Gambon. Até mesmo as pequenas aparições de Martin Landau e Christopher Lee contribuem para tornar memoráveis suas seqüências.


Um intrigante suspense cuja revelação nos momentos finais pode surpreender até mesmo aqueles que tinham como certa a resolução da trama, mantendo o espectador atento até o último minuto. São poucas as projeções que alcançam tal proeza.




Autoria



Gilson Salomão Pessôa é jornalista formado em Comunicação Social pela Universidade Federal de Juiz de Fora, com Pós Graduação em Globalização, Mídia e Cidadania pela mesma faculdade. Publicou os livros "Histórias de Titãs Quebradiços" e "Um Suspiro Resgatado".




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